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Caminho dos Pajés – Shamans, Senhores dos Espíritos I

Caminho dos Pajes

 

Este trabalho ofereço como retribuição de respeito e gratidão a tudo que venho aprendendo com as Sabedorias milenares de todos os Povos Originários. Com Amizade.

Pajé – a autoridade espiritual

Em uma sociedade Tradicional onde a comunicação entre o Transcendente e o mundo terrestre é a base da verdadeira existência, a autoridade espiritual ocupa o topo da hierarquia social. A autoridade espiritual é central e a ela se subordina o poder temporal dos chefes políticos. Mas isso não significa, como se difunde muitas vezes erroneamente, que a proeminência da autoridade espiritual sobre o poder político dos chefes implique em maiores direitos e privilégios.

Em geral a proeminência acarreta maiores deveres. Pois o zelo pela boa harmonia com o mundo dos espíritos e dos princípios universais é tarefa densa e de alta responsabilidade, com consequências sérias para a vida dos povos Originários. Também, não significa que a mediação entre o mundo dos espíritos e o mundo terrestre deva necessariamente ser feita por uma pessoa específica.

O mesmo vale para a função de coordenação da vida política; termo, esse, que provêm de um conceito do mundo dos brancos. Referindo-se àqueles que regem a polis, modelo de cidade-estado da Grécia Antiga. E sabemos o quanto os povos Originários sempre foram aversos à ideia de um poder central que os representasse ou ao qual estariam subordinados.

O apreço por um certo tipo de liberdade em que o indivíduo resguarda para si larga margem de autonomia, apesar de suas obrigações de parentesco, é bastante marcante na postura dos povos Originários; seja em relação aos chefes políticos, seja em relação às suas autoridades espirituais.

Como a relação com o mundo dos espíritos e dos princípios universais passa pelo manejo que os seres têm de participar do Poder do Grande Espírito, cada de várias fontes. Mas alguns detêm de modo mais proeminente as responsabilidades como autoridades espirituais; segundo uma hierarquia de deveres, capacidades e normas ditadas a cada Tradição pelo seu fundador mítico desde os tempos primordiais.

As denominações usadas pelos povos Originários para suas autoridades espirituais variam de povo para povo. Pajé, Paí-ete entre os Guarani, Piaí entre os Waiãpi, Pazé para o povo Tenetehára, Pancé para os Tapirapé, Aroetaware e Bari para o povo Borôro, para os Desâna, Yaí para os Tukano, e muitos outros nomes.

Na língua Tupi, a palavra paí designa o pajé; também, significando “pai” ou “senhor”. E evidencia o pajé como o pai espiritual de um povo. Paí-ete é “o pai verdadeiro” ou “a paternidade espiritual” superior à paternidade biológica, mental ou social; que seriam apenas os reflexos limitados daquele, segundo seus planos de realidade.

Frequentemente, os Guarani chamam o pajé de Nãnderu, “nosso pai”. Outro termo bastante utilizado é o de xamã. Mas este não é um termo nativo indígena; sua origem vem da Ásia Central e da Sibéria, derivado de tungús shaman (1).

Os termos também são referidos como médicos, feiticeiros, especialistas do designações podem se referir a categorias diferentes. Pode haver mais de um pajé em uma aldeia e suas atribuições serem diferentes; mas todas elas provêm de sua capacidade de relacionar-se como mediador entre os mundos.

Embora possam ocorrer casos em que a transmissão seja hereditária, a origem dos pajés predominantemente se dá através de algum fenômeno marcante. Que evidencia aos olhos do postulante, de sua comunidade e de seus pajés tratar-se de alguém dotado das qualidades superiores de contato com o mundo celeste. Um dos fenômenos muito significativos neste sentido é o dos sonhos especiais, em que os espíritos lhe anunciam seu destino de futuro pajé.

Assim, o chefe Iawalapiti Paru narra a história de Apossa (povo Nahukwá):
Um dia, Apossa matou uma cobra verde não venenosa. O dono da cobra ficou bravo, e com raiva deu doença e ferida no corpo todo. Ficou na rede, ficou magro, três meses doente. O espírito vem, olha e diz: ‘Você não morre, a cobra está ouvindo, você vai ficar pajé’.

Apossa contou para o irmão que toda noite, no sonho, espírito dizia: ‘Você fica pajé grande’. E falou: ‘Amanhã eu vou melhorar’.

Apossa não come, não toma mingau, só fuma charutos que o espírito traz e ninguém vê. Mas a fumaça sai pelo nariz e pela cabeça.
Apossa mandou o irmão pescar. No outro dia, mandou cinco irmãos: vai ter pajelança.
Irmão traz peixe, ele manda cozinhar nos ‘panelões’ de barro, dez panelas.
No outro dia, manda esquentar cozido de peixe, faz mingau, biju, muito: quarenta. Mandou trazer banco, sentou. O irmão segurou pra não cair.

Veio vento, rodou, rodou, entrou na casa. Outro vento, outro, outro, outro, outro. Mais ainda… Trinta ventos. Cheio casa. Começou fumaça. Ninguém fumava, só pajé. Ninguém via espíritos.

Apossa falou: ‘Não vou morrer, não’.
Cinco minutos acordou, ficou de pé, mandou irmão mais velho dar mingau. Irmão não viu espírito, espírito pegou. Deu outro, pegou. Outro. Cinco minutos, acabou.

Biju acabou, agora pessoal vai embora. Espírito foi. Vento foi embora.
Ele virou pajé.
Uma noite ele sonha bicho muito grande levando flechada. Dono do bicho falou: ‘Apossa, olha pra mim meu bicho, que homem flechou’.
Apossa tirou flecha, um minuto bicho melhorou. Dono ficou contente, foi embora.
Amanhã, pessoa doente entra na casa, chamou pajé novo. Ele olhou, falou:
‘Doença tá na barriga’. Fumou, passou fumaça na mão, falou: ‘Olha, eu não tem nada na mão’. Pegou na barriga, mostrou doença. Quatro horas, não tem nada mais. Ganhou dois colares de caramujo de pagamento. Quatro horas, voltou, tirou, tirou, tirou, amanhã não tem doença mais (2).

O mesmo Paru esclarece que pajé ninguém escolhe, acontece (3).
Poderíamos ser tentados a interpretar estas palavras de Paru como se a escolha de um futuro pajé fosse algo sem lógica alguma, uma espécie de capricho aleatório dos espíritos. Mas “ninguém escolhe” é bem mais no sentido de estar fora do desígnio humano a escolha para esta função e destino.

O fato de a ocorrência de evidências supranaturais se dar com esse indígena então outro, é porque o escolhido apresenta qualidades interiores que o tornam apto e compromissado a desenvolvê-las. A presença potencial destas qualidades se liga a méritos e esforços desenvolvidos até então. Ainda que a consciência dessa trajetória possa não ter aflorado antes do evento esclarecedor.

Guardadas as devidas diferenças e cautelas, a ocorrência de evidências supranaturais ocorre em tradições de várias partes do mundo. Entre os Araweté, “certos sonhos, se frequentes, podem indicar uma vocação para pajé; especialmente os sonhos com onças e com a “Coisa-Onça”, um Maí bastante perigoso” (4).

Quando a vocação de pajé é evidenciada, se inicia o processo de treinamento no qual o postulante trabalha as qualidades necessárias para o desenvolvimento de sua natureza. Os métodos e duração do treinamento para pajé variam conforme cada povo, embora muitas destas práticas se assemelhem.

No intuito de ilustrarmos o processo de iniciação de um pajé, transcreveremos um relato, dada a riqueza de seus esclarecimentos (5):

“(O senhor é pajé também, não é?)
Eu sou chefe e o pajé também.
[Embora não seja uma regra, ocorre às vezes de o pajé reunir em sua pessoa a função da chefia política].

“(Como é que uma pessoa fica pajé?)
Mas é muito difícil pra mim contar pra ocê. Primeiro, meu pai ensinar. Ensinando, ensinando, ensinando. Quando eu tava rapaz novo, então meu pai falou: ‘ocê tem que aguentar’. [A capacidade de suportar duras provações é uma importante exigência do processo iniciático].

É muito difícil eu contar direitinho pra ocê… Então, eu peguei doente lá, aí começou, virou mato… Começou assim. Espírito chegou também. Muita gente. Dez mais quinze espírito chegou lá do meu lado… Ele falou pra mim que ‘ocê agora vem pra cá pra levar ocê, ocê vai virar pajé…’ Falou assim pra mim.

“(Os espíritos?)
Os espíritos… Quando ele vem vindo pra cá, aí eu gritei… Aí minha mãe ela pensa que eu ficou tonto…, Mas aí ela falou pra mim: ‘Ocê tá tonto?… Não, não é não, minha mãe. Esse é outra coisa. Depois, três dias, espírito chegou, aí eu foi com ele, deixou meu corpo, eu foi com o espírito.

[A viagem “ênstática” (em direção ao seu Centro interior) fora do corpo, para outros domínios existenciais, é uma das qualidades que distingue os grandes pajés, tanto mais elevado e respeitado quanto mais elevado é o nível cósmico que ele consegue alcançar, qualidade considerada difícil de ser obtida e superior ao da cura. Mais difícil ainda seria atingir o ponto em que se dá o contato com o Criador].

“(Agora, com os espíritos o senhor aprendeu a curar?)
Aprendeu a curar.

[A cura das doenças é considerada uma das provas de um pajé poderoso e uma de suas atribuições. De modo geral, a prática consiste nas repetidas fumigações de tabaco sobre o doente, enquanto o(s) pajé(s) profere(m) suas recitações e ritos sagrados; sucção de objetos e causas invisíveis responsáveis pela introdução da doença, em geral vista como ação de feiticeiros, os quais uma vez apurada sua responsabilidade na doença, são mortos pelos parentes da vítima.

Há por isso uma distinção entre o pajé e o feiticeiro, este sendo o que se limitaria ao uso da magia para práticas maléficas. A magia é uma ciência tradicional presente em todas as tradições indígenas, e consiste no conhecimento e domínio das forças do mundo sutil intermediário do Cosmos. Mas o que caracteriza o feiticeiro é propriamente o tipo de uso que faz dessas forças mágicas; não sendo o uso das forças mágicas em si, mas da “magia negra”. Pelo perigo que este uso implica, em muitas tradições ela é fortemente recriminada.

O pajé pode também prescrever medicamentos que fazem parte da medicina tradicional de seu povo (ervas, alimentos, prescrições de rituais). Os Mbyá-Guarani associam muitas enfermidades físicas e mentais com as paixões de uma vida imperfeita, a inobservância dos preceitos divinos e as infrações do código moral (6). Os pajés consideram ineficaz sua medicina tradicional quando se trata da cura das doenças trazidas pelo homem branco; como a gripe, o sarampo e outras].

Primeiro, eu fui com o espírito. Depois, três dias, minha mãe não quer pra ficar como pajé. Aí ela passou outro… Aí, eu não vê mais coisa. Eu não vê mais coisa. Demora até quinze anos o cobra me mordeu bem aí… No braço. Quase eu fui embora. Quase morrer. Então começou de novo. [Recomeçam as visões]. Aí eu vi uma coisa assim, o cobra tá querendo me matar… Aí, quando eu vem pra cá, tinha a dona do peixe, dono do peixe, ele saiu sangue na boca dele. Muito sangue…”.

O pajé está se referindo ao espírito dono do peixe. Já dissemos que na visão espiritual dos povos Originários, todos os seres da Natureza têm “espírito”, e cada espécie tem um “pai ou dono”, um senhor-princípio sutil que rege a vida dessa espécie.

Lembremos do relato anterior, quando o pajé diz que “uma noite ele sonha bicho muito grande levando flechada. Dono do bicho falou:Apossa, olha pra mim meu bicho, que homem flechou. Apossa tirou flecha, um minuto bicho melhorou. Dono ficou contente, foi embora’”.

Durante a iniciação, o futuro pajé deve aprender a se relacionar com esses espíritos-donos de espécies. Seja pelas formas amistosas de oferendas de presentes ou pelo combate; como nos relatos dos Tapirapé sobre os combates dos panchés com os topi, espíritos do Trovão.

Muitas das doenças provêm do roubo das almas feito por esses donos de espécies. Roubo que pode ter sido provocado por alguma quebra das prescrições que regulam a relação entre as espécies vivas e o mundo humano. A gravidade dessa quebra pode exigir que o pajé viaje até o reino onde mora o senhor da espécie ofendida e com ele refaça os bons termos do convívio.

Quando se vê o modo infantil e irresponsável com que o mundo moderno lida com os animais, pode se ter uma ideia da distância que separa a espiritualidade dos povos tradicionais e o caráter profano da civilização moderna, presentificando “o escândalo que haveria de vir” e que prenunciaria os sinais dos tempos.

Notas

(l) ELIADE, Mircea. El Chamanismo y las técnicas arcaicas de éxtasis. México: Fondo de Cultura Economica, 1976, p.22.

(2) NOVAES, Washington. Xingu: uma flecha no coração. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985, p.62-63.

(3) NOVAES, W. idem, op. cit., p. 43-44.

(4) VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo B. Araweté, o povo de Ipixuna. São Paulo: CEDI, 1992, p. 138.

(5) O relato é do chefe e pajé Raoni, do grupo Txucarramãe, dos Kayapó, da família Jê, habitando no Parque Nacional do Xingu. A narrativa faz parte da entrevista concedida por Raoni a Washington Novaes, em 21/09/1984, conforme livro citado. Mantivemos o relato na forma de entrevista como aparece no original, com apenas alterações na supressão de expressões idiomáticas repetitivas (como a expressão “né”) e na forma gráfica de colocar as perguntas em parênteses. Comentários nossos, quando necessários, aparecem inseridos em colchetes.

(6) CADÓGAN, L. Los remedios imperfectos. In Ayvu Rapytá. São Paulo, Boletim 227, Antropologia, no. 5, FFLCHUSP, 1959, p. 107.

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