A VIAGEM ESPIRITUAL DO PAJÉ II

A viagem espiritual do pajé pode tanto ser para os reinos superiores ou celestes, como para os reinos inferiores ou infernais. Assim, como o mundo subterrâneo pode se referir não somente aos mundos infernais, mas ao domínio velado dos reinos superiores; representado pelas cavernas, lugares de iniciação espiritual, imagens dos reinos superiores e inferiores.
O pajé precisa ter fortaleza suficiente tanto para ascender como descer por esses múltiplos reinos, dominando os espíritos (mama´é) que serão seus espíritos-auxiliares. Ao contrário dos “possessos” que por práticas perigosas na sociedade moderna, se transformam temporariamente em instrumentos “possuídos” por vários espíritos ou espíritos de pessoas falecidas.
Os pajés são ativos e dominam seus espíritos-auxiliares; ao passo que os segundos são passivos, recebem e são “possuídos” por entidades do mundo sutil as quais na maioria das vezes desconhecem de onde provêm, e qual sua verdadeira natureza e controle.
O conhecimento e uso destas forças sutis do mundo intermediário – entre o corporal e o espiritual – fazem parte da ciência tradicional da magia. Também, fazem parte da atribuição do pajé a expulsão dos espíritos malignos que invadem o mundo psíquico indígena. As vítimas preferenciais dos “roubos de alma” são as crianças pequenas e as mulheres.
Durante o processo iniciático, o futuro pajé pode receber um canto dos espíritos que passará a ser o seu modo de ascender ao mundo dos espíritos ou trazê-los próximos a ele. Os pajés são os principais veículos de manifestação dos deuses e mortos, através da dança e do canto. Utilizam dois instrumentos essenciais presentes em grande número de povos Originários: o tabaco e a maracá. O som das maracás ativa e dirige as forças sutis do mundo dos espíritos necessárias às operações de cura ou comunicação espiritual. Os religiosos vindos com os colonizadores pretenderam ver nas maracás um ídolo e instrumento de embuste da parte dos grandes pajés (1).
Os pajés são os principais detentores do conhecimento dos mitos das cosmologias fundantes de seu povo. Mitos que são cantados e dançados até o estado de êxtase, recriando e vivificando o mundo.
Entre muitos povos Originários desapareceu a figura do pajé. Devido à ação devastadora do contato com o mundo expansivo dos brancos, a sistemática repressão das diversas ordens religiosas vindas com os colonizadores, e a ruptura da cadeia de transmissão da pajelança por causa da ausência de membros tribais aptos às exigências colocadas para esta transmissão. Há casos em que uma tribo não tendo mais seus pajés, vai buscar o apoio dos pajés de outras tribos vizinhas.
O desaparecimento dos pajés é um fato espiritual enfraquecedor para as comunidades indígenas. Pode significar a ruptura da transmissão da influência espiritual necessário para a sustentação da vida comunitária; fundada e revivificada pela comunicação viva com o mundo celeste. Assim, como para o próprio caminho da realização espiritual de cada indivíduo. Pois os pajés são os responsáveis pela orientação da superação dos tantos obstáculos que separam o mundo exterior da aldeia dos ancestrais.
Nas comunidades indígenas quando esta função não se concentra na figura de um pajé, esta função é coletiva. Onde os segredos dos mistérios estão dentro das famílias. Podendo ocorrer um enfraquecimento da espiritualidade, quando as novas gerações se desinteressam ou tem pequena habilitação para a função de pajé; por estarem mais expostas às atrações do mundo dos brancos. Isto se torna uma ameaça para a continuidade desta transmissão, para a preocupação dos anciões.
Notas
(1) DE LÉRY, Jean. Viagem à Terra do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Editora Itatiaia/EDUSP, 1980, p. 216.